Assisti recentemente no Doc TV um vídeo sobre o garimpo de Serra Pelada, uma cena rápida quase imperceptível no meio de tantas outras que passaram ficou gravada na minha memória: Um soldado que não se sabe se PM ou Militar, no meio do buraco do garimpo, rodeado de garimpeiros simplesmente atira com seu fuzil. Um garimpeiro que está a metros de distancia e que não participava diretamente do acontecimento recebe o balaço na cabeça e cai morto.
Nada acontece, uns garimpeiros olham para os outros e o corpo caído, insignificante, como de um bicho morto, se é que é insignificante alguma morte. Sem grande importância. Parece meio abandonado, como abandonada era a vida daquelas pessoas em relação ao resto do mundo.
O policial que atira fica impassível e bem tranqüilo, age como se nada tivesse acontecido. Como se ele não fosse o responsável por tirar uma vida indefesa, inocente realmente, tão inocente que não teve tempo nem de saber o que lhe aconteceu. Sua única culpa foi a ganância de querer o ouro, a riqueza maldita de muitos garimpos.
Não sabemos muito daquela cena, quem foi o homem que morreu? Quem foi o militar despreparado que atirou inconseqüentemente e que não deve ter respondido pelo seu crime? Será que a família do garimpeiro assassinado soube do que houve? Ou ele foi apenas mais uma cova rasa num provável cemitério clandestino no chão do Pará?
Possivelmente a família do garimpeiro está por aí com fotos nas mãos e na esperança de encontrá-lo, achando que ele possa estar vivo em algum lugar. Sofrendo sem saber o seu paradeiro. Assim como tantas outras com seus cartazes e fotos surradas pelo tempo. O militar deve carregar na memória o tormento do que causou, isso se ainda estiver vivo.
O vídeo é o fragmento de tantas histórias desconhecidas e forçadamente escondidas. Esses são segundos de uma história dramática, anônima, das muitas que provavelmente ainda existem, poucos conhecem e os governos querem sepultar no “sigilo eterno”.
Por João Carlos Barreto
Editor Geral: Goiás em Notícias

