O lugar é de difícil acesso, as casas são de adobe com telas de palha,
não tem energia, água tratada e encanada, não tem esgoto, não tem telefonia,
não tem posto de saúde, quase nada de benefícios do século XXI. Assim vive os
calungas do Vão do Moleque em Cavalcante, Goiás.
A viagem é longa entre Goiânia e o município histórico de
Cavalcante GO, são 512 km de rodovia até Cavalcante, passando por dentro de
Brasília, depois 160 km em estrada acidentada até a comunidade quilombola do
Vão do Moleque, as margens do rio Paranã. São aproximadamente 11 horas de
viagem, de Goiânia até aquela comunidade.
O Goiás em Notícias
(GN) acompanhou o trabalho desenvolvido pela Caravana Ecológica, uma
entidade de cunho ambiental que realiza viagens de assistência com apoio do
governo municipal de Cavalcante. Nas viagens que podem acontecer uma ou duas
vezes por ano, o responsável pela excursão é o educador e ambientalista, David Araújo,
que através da AGABRA (Associação dos Gestores Ambientais do Brasil ) leva
estudantes em gestão ambiental para conhecer a realidade e lugares ainda poupados pelo homem, com rios e riachos límpidos, cerrado preservado,
pássaros, etc. Além da visita de estudos, a Caravana Ecológica leva para os
moradores alguns donativos e principalmente médicos e enfermeiros para
consultar os calungas. Outro ponto importante são as palestras de
conscientização sobre ecologia, preservação, ações ambientais e prevenções de
doenças. Para as crianças brinquedos e brincadeiras.
O trabalho é tão bem recebido que com a chegada da Caravana
as 200 famílias, aproximadamente, se dirigem para a única construção de
alvenaria da região: a Escola Municipal Congonhas.
A última viagem aconteceu durante o Carnaval, dia 02 de
março de 2014. Com total apoio da Secretaria de Saúde e Educação municipal, do
atual vereador Rosemberg Dias (antes secretário de Educação) e com a dedicação
dos médicos cubanos (do Programa “Mais Médicos”), Liban Curbelo e José Miguel
Guerra Perez, e também as enfermeiras Racy e Betinha, além das professoras
coordenadoras Gesselia e Josenite que abdicaram da folga de carnaval para
consultar mais de 400 pessoas em dois dias que estiveram junto com a Caravana
Ecológica. Os pacientes com sintomas mais complexos foram indicados para
procurá-los na unidade do Programa Saúde da Família na cidade.
O diferencial daquela região está na educação. A Escola
Municipal Congonhas é a única construção de alvenaria. Com toda a instalação
pronta para receber água encanada e energia. Os alunos, na sua maioria, diariamente
chegam a pé ou de bicicleta. Aliás, bicicleta é um dos pedidos comuns para os
adolescentes. “Queria ganhar uma bicicleta para ir à escola”, confidenciou um
deles.
A Comunidade Calunga
do Vão do Moleque não desfruta dos mesmos benefícios de outras comunidades calungas
mais próximas da cidade. Eles não têm
quase nenhum benefício governamental ou tecnológico, apenas uns dois veículos,
sendo quase uma dezena de motos. O aceso
até a cidade é feito mesmo através de um caminhão antigo, mas com potência
suficiente para fazer o trajeto com sol ou chuva, levando mantimentos e pessoas
uma vez por semana. Fora isso, muitos ainda fazem o percurso de 160 km a pé,
com uma parada no meio do caminho para pernoitar na beira de um riacho com água
potável e cristalina. No dia seguinte a caminhada prossegue durante todo o dia
para chegar à cidade. A maioria vai mesmo de carona ou aguarda a passagem
semanal do caminhão.
Apesar da vida no estilo do século XVII, os calungas parecem
que vivem relativamente bem, o maior problema é a falta de atendimento médico
mais constante e o maior desejo é de ter a energia. Para suprir a falta de
médicos, o morador e raizeiro Simão Francisco Dias, da o primeiro atendimento e
até alguns tratamentos naturais. Quando a situação é grave, eles tentam um
transporte até a cidade.
Quem está acostumado aos confortos da cidade vai estranhar
muito o modo de vida daqueles Calungas ( descendentes de escravos) que vivem
naturalmente nos moldes dos antigos quilombos.
João Carlos Barreto
Ag. Goiás em Notícias.

